Energia solar em 2026: como curtailment e juros redesenham o planejamento de usinas no Brasil

O que muda para quem opera e investe em solar
- A ABSOLAR projeta adição de 10,6 GW em 2026, abaixo de 2025 (11,4 GW) e do recorde de 2024 (15 GW).
- O freio vem de três frentes: cortes de geração (curtailment) na centralizada, gargalos de conexão na GD e custo de capital elevado (juros, câmbio e impostos de importação).
- Para o ONS, o curtailment já é um tema estrutural: em 2024, as restrições por razão energética somaram ~4.330 GWh (493 MWmed) e chegaram a picos horários (semi-horários) de 22.766 MWmed.
O que está por trás da desaceleração projetada para 2026
Depois de um ciclo de crescimento muito forte, a discussão de 2026 deixa de ser “quanto vamos instalar” e passa a ser “quanto conseguimos escoar, conectar e financiar sem destruir a previsibilidade do caixa”. É exatamente essa mudança de eixo que aparece nas projeções setoriais.
A ABSOLAR atribui o menor ritmo esperado principalmente a:
1) Curtailment na geração centralizada: corte “por razões alheias ao ativo”
No vocabulário do setor, curtailment é o corte de geração renovável por motivos externos ao empreendimento — ou seja, não é falha do parque, mas uma restrição operativa do sistema.
O ponto crítico para o investidor/operador é que isso mexe diretamente no business case: você pode ter sol, disponibilidade e performance, e ainda assim não conseguir entregar energia.
2) Conexão na GD: negativa de acesso e “inversão de fluxo”
Na geração distribuída, o gargalo aparece como dificuldades de conexão: com distribuidoras alegando limitações de rede e risco de inversão de fluxo de potência.
Na prática, isso desloca o risco: o projeto pode estar pronto (ou vendendo), mas o “go-live elétrico” fica dependente de condições de rede e critérios técnicos que variam por área/concessionária.
3) Juros e custo de capital: a conta do MW fica mais sensível
Mesmo quando o ativo é tecnicamente sólido, o custo de capital vira o fiel da balança. A ABSOLAR aponta taxa de juros elevada, volatilidade do dólar e alíquotas de importação como fatores que pressionam a expansão.
Os números que importam para planejamento (CAPEX, O&M e receitas)
A projeção setorial ajuda a calibrar cenários (P50/P90, DSCR, merchant tail, covenants) com dados concretos:
- Adição de capacidade (solar total): 10,6 GW (2026) vs 11,4 GW (2025) vs 15 GW (2024).
- Capacidade acumulada estimada até fim de 2026: > 75,9 GW, sendo 51,8 GW em GD e 24,1 GW em centralizada (SIN).
- Investimentos estimados em 2026: R$ 31,8 bi, abaixo de ~R$ 40 bi em 2025.
- Empregos e arrecadação: 319,9 mil postos previstos e ~R$ 10,5 bi de arrecadação (vs 396,5 mil e >R$ 13 bi em 2025).
Esses números “puxam” uma consequência direta: com menos folga no CAPEX e mais incerteza de geração líquida (pós-cortes), a disciplina operacional ganha peso no valuation.
Curtailment no SIN: não é “um evento”, é um regime operacional
Para tratar curtailment do jeito certo, vale alinhar a taxonomia do ONS. O Operador classifica as restrições em três grupos: indisponibilidade externa, confiabilidade e razão energética (sobreoferta em determinados horários).
Essa classificação importa porque muda a estratégia de mitigação:
- “Confiabilidade” puxa reforços de rede/limites elétricos e requisitos sistêmicos;
- “Razão energética” puxa flexibilidade (armazenamento, modulação, shifting de carga, híbridos);
- “Indisponibilidade externa” puxa coordenação com transmissora/distribuidora e governança de intervenção.
O tamanho do tema em 2024 (visão ONS)
O ONS aponta que, em 2024, as restrições por razão energética totalizaram cerca de 4.330 GWh (493 MWmed), com pico (semi-horário) de 22.766 MWmed.
E a sazonalidade aparece com força: há meses com restrição relevante como percentual do potencial — chegando a 16,5% em set/2024 no recorte apresentado.
O papel de MMGD/GD na severidade das restrições
Um ponto técnico pouco discutido fora do time de operação é o efeito “curva de carga líquida”: com mais MMGD/GD atendendo parte da carga, sobra menos espaço para acomodar geração centralizada em certos horários.
No relatório, o ONS mostra que um rateio/redistribuição das restrições considerando MMGD e GD poderia reduzir, no exercício analisado, a restrição média nas fontes centralizadas de 493 MWmed para 263 MWmed e a energia restrita anual de 4.330 GWh para 2.315 GWh (redução de 46%).
Regulação e compensação: por que isso entrou no “top 3” do setor
Quando curtailment vira recorrente, a pergunta deixa de ser só “como reduzir” e passa a ser “como alocar esse risco”.
A ABSOLAR menciona a frustração com o veto ao dispositivo que previa ressarcimento integral pelos cortes na MP 1.304 (convertida na Lei nº 15.269/2025). O tema também aparece em comunicados legislativos: ao sancionar com vetos, o governo argumentou que ampliar ressarcimentos poderia transferir custos aos consumidores.
Mitigação na prática: 5 alavancas técnicas para reduzir exposição a cortes
Com o cenário descrito acima, 2026 tende a premiar quem trata “energia gerável” e “energia entregue” como variáveis diferentes no projeto e na operação.
1) Modelar risco de escoamento desde o feasibility
- Cenários de restrição por submercado
- Sensibilidade de receita por janela horária (principalmente meio do dia)
- Cláusulas de PPA/contratos com premissas realistas de entrega líquida
2) Flexibilidade: armazenamento e híbridos deixam de ser “nice to have”
A própria ABSOLAR chama baterias de “parceiro número 1” para sustentar a expansão.
Na engenharia, isso se traduz em: shaving de picos, arbitragem intradiária e serviços ancilares (quando aplicável).
3) Performance elétrica e requisitos de rede (grid compliance)
Curtailment por confiabilidade conversa com limites elétricos. Ganham importância:
- controle de tensão/reativo por inversores
- qualidade de energia
- coordenação de proteção e estudos de estabilidade
4) Excelência em O&M: quando a janela de geração encolhe, disponibilidade vale mais
Se o sistema corta parte da produção, cada hora “liberada” vira mais valiosa. Aqui entram rotinas e tecnologias para:
- reduzir indisponibilidades forçadas (inversores, trafos elevadores, trackers, cabos/strings)
- acelerar diagnóstico e reduzir MTTR
- manter performance (PR, perdas, degradação)
Na Delfos, essa discussão normalmente converge para asset performance management: monitorar condição, antecipar falhas e atacar perdas antes que virem energia não entregue: especialmente em um ambiente em que a geração efetiva pode ser limitada por fatores externos.
5) Medir certo: separar corte do sistema vs indisponibilidade do ativo
Sem essa separação, o time toma decisão errada (e o financiador perde confiança). Uma boa governança de dados:
- classifica eventos (ONS/rede/ativo)
- reconcilia SCADA + medição + despacho
- traduz em impacto financeiro (R$/MWh, PPA vs merchant, penalidades)
Como a Delfos ajuda a transformar “risco de sistema” em decisão operacional
Se 2026 tende a ser marcado por cortes de geração, restrições de rede e maior sensibilidade ao custo de capital, a diferença entre um ativo “bom no papel” e um ativo “bom no caixa” vai depender de visibilidade operacional e velocidade de resposta. É exatamente aqui que a Delfos entra como camada de inteligência para operação e manutenção: ao consolidar dados de SCADA/CMMS/medição, detectar anomalias com antecedência e priorizar intervenções pelo impacto em energia e receita, a Delfos ajuda a reduzir perdas controláveis (falhas, degradação, performance abaixo do esperado e MTTR): preservando a geração líquida justamente quando a janela de escoamento está mais apertada.
Na prática, enquanto o curtailment é um risco externo que o operador nem sempre consegue eliminar, o que dá para ganhar (e muito) é excelência na disponibilidade e na performance: menos paradas, melhor qualidade de geração, manutenção orientada por condição e decisões técnicas mais rápidas.
Em um cenário de crescimento mais seletivo, isso se traduz em algo simples: mais previsibilidade, melhor cumprimento contratual e maior resiliência financeira do portfólio solar.
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