Curtailment: o nome muda, o prejuízo é o mesmo
February 25, 2026
8 min

Curtailment: o nome muda, o prejuízo é o mesmo

Curtailment. Vertimiento. Restricciones técnicas. Écrêtage. EinsMan. Nomes diferentes, mesmo problema: energia limpa produzida e nunca paga. Analisamos como funciona em cada mercado relevante e o que os geradores podem realmente fazer a respeito.

O mesmo problema, muitos nomes

Se você trabalha com geração de energia renovável no Brasil, já ouviu o termo curtailment. Mas se conversar com um colega chileno, ele vai falar em vertimiento. Na Espanha, o operador do sistema emite restricciones técnicas. Na Alemanha, são os Einspeisemanagement, os famosos "EinsMan". No Reino Unido, ouve-se constrained-off.

O conceito é o mesmo em todos os idiomas: a usina está produzindo, o sol está batendo, o vento está soprando, mas o operador do sistema manda desligar. A energia não chega ao consumidor. A receita do gerador some.

Brasil — Curtailment / Constrained-off Usado amplamente no setor. O ONS classifica em três tipos: REL (razão elétrica), CNF (confiabilidade) e ENE (razão energética). Somente o REL tem ressarcimento previsto.

Chile — Vertimiento Também chamado de "reducción" ou "desacople". O Coordinador Eléctrico Nacional (CEN) publica registros mensais dos vertimientos por central renovável.

Espanha — Restricciones técnicas Geridas pela Red Eléctrica em duas fases: restricciones del PDBF (pré-despacho) e restricciones em tempo real. As de Fase I não são compensadas financeiramente.

Alemanha — Einspeisemanagement "EinsMan" é a ordem dos operadores para reduzir injeção de renováveis. Segundo o regulador alemão Bundesnetzagentur, em 2024 os operadores pagaram €554 milhões em compensações por geração curtailed.

Reino Unido — Constrained-off Termo técnico consagrado. Em 2025, a energia curtailed no primeiro semestre seria suficiente para abastecer todos os lares escoceses por um ano inteiro.

França — Écrêtage / Curtailment A França usa o termo técnico "écrêtage de production". No primeiro semestre de 2025, o operador RTE registrou que 10% da produção solar teórica foi perdida por recortes, e em agosto o pico de curtailment eólico ultrapassou os 11%.

Por que isso está acontecendo agora, em todo lugar

A explicação de fundo é simples: a geração renovável cresceu muito mais rápido do que a infraestrutura de transmissão e os mecanismos de flexibilidade dos sistemas elétricos. O resultado é um paradoxo perturbador: usinas limpas são forçadas a parar enquanto o mundo bate recordes de emissões.

A IEA estima que pelo menos 3.000 GW de projetos renováveis aguardam conexão à rede globalmente, e mais de 80 milhões de quilômetros de linhas precisarão ser adicionados ou reformados até 2040 para atingir as metas de descarbonização. Enquanto isso não acontece, o curtailment é o sinal de alerta que pisca no painel de cada gerador.

"Somente em setembro de 2023, o curtailment da geração eólica resultou em perdas de receita superiores a R$ 100 milhões. No acumulado dos doze meses anteriores, o impacto financeiro total superou R$ 385 milhões." Ensaio Energético, com base em dados do ONS e CCEE

Brasil: um caso urgente

No Brasil, o curtailment deixou de ser um evento pontual para se tornar um problema estrutural. A progressão é alarmante, conforme dados publicados pelo ONS e sistematizados pela consultoria Volt Robotics:

O Nordeste concentra a maior parte dos cortes. Segundo o mapeamento do ONS, 54% dos cortes foram motivados pela sobreoferta de energia (razão energética). O governo federal reconheceu a gravidade do cenário e criou um grupo de trabalho específico, liderado pelo MME, para buscar soluções. Se as condições atuais forem mantidas, estima-se que os cortes por sobreoferta, que foram de 54% em 2025, possam chegar a 96% do curtailment total em três anos.

Chile: vertimentos que já chegam a 20%

O Chile enfrenta um paradoxo parecido com o brasileiro. Com 40% da matriz elétrica já proveniente de ERNC em 2024, os vertimentos chegaram a 5.908 GWh no ano, crescimento de 149% em relação a 2023. No primeiro trimestre de 2024, os recortes alcançaram 18,7% da energia renovável variável produzida, quase um quinto do total.

Para a diretora executiva da ACERA, Ana Lía Rojas, o saldo de 2024 foi devastador: "em 2024, o vertimento foi maior do que toda a nova energia solar injetada ao sistema". A linha de transmissão Kimal–Lo Aguirre, aguardada pelo setor, é citada como peça fundamental para aliviar o gargalo no norte, mas a construção enfrenta resistência social e ambiental que posterga soluções.

Europa: o continente aprendendo na prática

A Europa não está imune. Dados da Red Eléctrica confirmam que, entre julho de 2024 e abril de 2025, o percentual de energia renovável não integrável por restrições técnicas se manteve em torno de 1% a 3%. A partir de maio, houve uma escalada abrupta: em julho, o pico chegou a quase 11%, caindo levemente para 7% em agosto. A mudança de critérios da Red Eléctrica após o apagão histórico de abril de 2025 endureceu as restrições operativas. O custo de resolução de restrições técnicas fechou 2025 em 3.770 milhões de euros, frente a 2.523 milhões de 2024, alta de 49%.

Na Alemanha, o curtailment solar cresceu 97% em 2024, chegando a 1.389 GWh cortados, segundo dados da Bundesnetzagentur. A Baviera concentrou 986 GWh do total, 71% de todos os cortes fotovoltaicos do país.

Na França, o operador RTE registrou que 10% da produção solar teórica se perdeu no primeiro semestre de 2025, com picos de curtailment eólico superiores a 11% em agosto. No Reino Unido, a situação é crônica há anos: quase 20% da energia eólica gerada no norte do país não chega ao sul, onde a demanda se concentra.

O que está em jogo para os geradores

O curtailment não é apenas uma perda técnica. Ele afeta diretamente o fluxo de caixa de usinas, a confiança de financiadores, a viabilidade de PPAs e a capacidade de cumprir contratos, tanto no Ambiente de Contratação Regulada (ACR) quanto no Ambiente de Contratação Livre (ACL).

Quando a geração é cortada por razão energética, o tipo mais frequente no Brasil, representando 54% dos cortes em 2025, o gerador não recebe compensação. Precisa comprar no Mercado de Curto Prazo a preços definidos pelo PLD para honrar seus contratos. A Volt Robotics estima que as perdas econômicas associadas aos cortes de geração renovável alcançaram R$ 6,5 bilhões em 2025.

Para investidores estrangeiros e financiadores de projetos renováveis, o risco de curtailment já é um fator explícito na modelagem de fluxo de caixa. Conforme alerta o consultor Kiko Maza da WeMake Consultor, o aumento do curtailment "obriga a incrementar a energia vertida nos casos de negócio, tornando mais difícil que os números fechem e o projeto consiga financiamento".

As soluções que o mercado está buscando

Não há bala de prata. Os caminhos para mitigar o curtailment combinam infraestrutura, regulação e inteligência operacional.

Expansão e modernização da transmissão é a solução mais óbvia, mas com o prazo mais longo. Novas linhas levam anos entre projeto e operação, e enfrentam barreiras ambientais e sociais complexas. Em dezembro de 2024, 85% das obras supervisionadas pelo CEN chileno dedicadas a ampliar a infraestrutura registravam algum atraso.

Armazenamento de energia (BESS) permite deslocar geração dos horários de pico solar para o horário de demanda elevada. A ACERA estimou que um sistema de armazenamento de 3.800 MW com 4,5 horas de autonomia poderia ter absorvido os vertimentos diários registrados no primeiro trimestre de 2024 no Chile.

Grid Enhancing Technologies (GET) são tecnologias que aumentam a capacidade de linhas existentes sem construir novas, com prazo de implementação mais rápido que novas obras.

Gestão inteligente e previsão antecipada permite ao gerador ajustar estratégias de despacho, negociar no mercado de curto prazo e tomar decisões operacionais antes de sofrer as perdas. Aqui é onde a tecnologia faz a maior diferença no curto prazo.

"Não é suficiente olhar para a média do sistema. É preciso analisar nó a nó para entender a implicação real de cada projeto." Chema Zabala, Managing Director da Alantra Energía, citado pela Strategic Energy Europe

Monitoramento como vantagem competitiva

Em um ambiente de curtailment estrutural e crescente, geradores que dependem apenas de dados históricos do ONS, do CEN ou da Red Eléctrica para entender suas restrições estão sempre reagindo, nunca antecipando. Como demonstra o relatório da ePowerBay sobre 2025, o curtailment recorrente funciona como um sinal econômico e operacional de que o modelo de expansão precisa evoluir e quem chega atrasado a essa informação já perdeu.

A diferença entre quem sofre os cortes passivamente e quem consegue mitigá-los está na qualidade e na velocidade da informação disponível. A Delfos Energy foi construída exatamente para esse gap. Nossa plataforma integra dados operativos em tempo real, modelagem de despacho e análise de restrições por subsistema, entregando ao gerador visibilidade antes do corte acontecer, não depois.

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As informações deste artigo foram compiladas com base em dados públicos do ONS, CEN, Red Eléctrica, Bundesnetzagentur, RTE e publicações especializadas do setor, incluindo Ensaio Energético, Volt Robotics, ACERA, Strategic Energy Europe, pv-magazine, La Tercera e Correio Braziliense.

FAQ

O que é curtailment e por que ele tem tantos nomes diferentes?

Curtailment é quando a usina está gerando, mas o operador do sistema manda reduzir ou desligar por restrições de rede ou de operação. A energia não chega ao consumidor e a receita do gerador some. O nome muda por país, mas o efeito é sempre o mesmo.

País Termo local Como aparece na operação
Brasil Curtailment / Constrained-off ONS classifica em REL, CNF e ENE; apenas REL tem ressarcimento.
Chile Vertimiento Também chamado de “reducción” ou “desacople”; CEN publica registros mensais por central.
Espanha Restricciones técnicas Pré-despacho (PDBF) e tempo real; Fase I não é compensada.
Alemanha Einspeisemanagement (EinsMan) Ordem para reduzir injeção; houve €554 milhões em compensações em 2024.
Reino Unido Constrained-off Restrição por gargalos; no 1º semestre de 2025, a energia curtailed seria suficiente para abastecer lares escoceses por um ano.
França Écrêtage / Curtailment RTE registra perdas relevantes; 10% da produção solar teórica foi perdida no 1º semestre de 2025.

Dica prática: padronize internamente o termo “curtailment” e mapeie o nome local por país para não perder sinais em relatórios e portais oficiais.

Por que o curtailment está aumentando agora (no Brasil, Chile e Europa)?

Porque a geração renovável cresceu muito mais rápido do que a transmissão e os mecanismos de flexibilidade do sistema. Enquanto rede, armazenamento e gestão de demanda não acompanham, os cortes viram um problema estrutural.

Como o curtailment funciona no Brasil e qual tipo é compensado?

O ONS classifica curtailment em três tipos: REL (razão elétrica), CNF (confiabilidade) e ENE (razão energética). Somente o REL tem ressarcimento previsto. Quando o corte é por ENE, o gerador pode precisar comprar energia no Mercado de Curto Prazo (PLD) para honrar contratos.

Quais são os números mais críticos citados para Brasil e Chile?

No Brasil, o curtailment saiu de 0,5% (2022) para 20,6% (2025), com perdas estimadas de R$ 6,5 bilhões em 2025 e predominância no Nordeste. No Chile, os vertimientos chegaram a 5.908 GWh em 2024 (+149% vs. 2023) e, no 1º trimestre de 2024, atingiram 18,7% da geração renovável variável.

O que está em jogo para O&M e contratos (ACR e ACL)?

Curtailment reduz fluxo de caixa, aumenta risco percebido por financiadores e pode comprometer o cumprimento de PPAs e contratos no ACR e no ACL. Quando não há compensação (como cortes por razão energética no Brasil), o impacto financeiro pode crescer rápido, especialmente em períodos de sobreoferta.

Como mitigar perdas por curtailment no curto e no longo prazo?

Longo prazo: expansão e modernização da transmissão. Médio prazo: BESS para deslocar geração e Grid Enhancing Technologies (GET) para aumentar capacidade sem novas linhas. Curto prazo: gestão inteligente e previsão antecipada para ajustar despacho, decidir antes do corte e reduzir perdas evitáveis.

Para decisões de campo e priorização, análise “nó a nó” é decisiva: médias do sistema escondem onde o problema realmente acontece.

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