BESS no Chile: como o armazenamento transforma o curtailment em receita
August 12, 2026
5 min

BESS no Chile: como o armazenamento transforma o curtailment em receita

O avanço dos BESS no Chile transforma energia solar desperdiçada em receita. Entenda o papel da arbitragem e da disponibilidade operacional.

O Chile está produzindo mais energia renovável do que sua rede consegue transportar em determinados momentos do dia. Painéis solares continuam disponíveis, mas parte da eletricidade gerada não chega aos consumidores nem se transforma em receita para os operadores.

Em 2025, o país registrou mais de 6.000 GWh de energia renovável desperdiçada, fenômeno conhecido localmente como vertimiento. De acordo com dados divulgados pela PV Magazine sobre o avanço do curtailment no Chile, o volume aumentou 7,8% em relação ao ano anterior.

O dado revela um dos principais paradoxos da transição energética: não basta instalar mais capacidade renovável. É necessário garantir que a energia produzida possa ser deslocada e entregue no momento em que o sistema realmente precisa dela.

É nesse cenário que os sistemas de armazenamento de energia em baterias, ou BESS, estão assumindo um papel estratégico. No Chile, eles já não são apenas uma tecnologia complementar. Tornaram-se parte essencial da infraestrutura necessária para reduzir o curtailment, equilibrar o sistema elétrico e preservar a rentabilidade dos projetos renováveis.

Por que o curtailment solar está aumentando no Chile?

O Chile possui algumas das melhores condições solares do mundo, especialmente no norte do país. A rápida expansão de projetos fotovoltaicos aumentou significativamente a oferta de energia durante o dia, mas a infraestrutura de transmissão não cresceu na mesma velocidade.

Grande parte da geração está concentrada em regiões afastadas dos principais centros consumidores. Quando as linhas de transmissão atingem seus limites, o operador do sistema precisa restringir a produção para manter a estabilidade e a segurança da rede.

Na prática, isso significa que uma usina pode estar plenamente disponível, com radiação solar suficiente e equipamentos funcionando corretamente, mas ainda assim ser orientada a reduzir sua geração.

Essa energia deixa de ser aproveitada não por uma falha da usina, mas porque o sistema não consegue absorvê-la ou transportá-la naquele momento. Quanto maior a participação de fontes variáveis, como solar e eólica, maior tende a ser a necessidade de flexibilidade, transmissão e armazenamento.

Como o excesso de energia solar derruba os preços

O excesso de geração também cria um forte desequilíbrio entre os preços registrados ao longo do dia.

Nas horas de maior produção fotovoltaica, a oferta de energia pode superar a demanda. Como consequência, o custo marginal do sistema pode cair para valores próximos de US$ 0 por MWh. Em alguns períodos, produzir mais energia não significa necessariamente gerar mais receita.

À noite, o cenário se inverte. A produção solar desaparece, a demanda permanece e o sistema passa a depender de outras fontes. Nesse período, os preços podem subir de forma significativa.

Essa diferença entre os valores diurnos e noturnos cria uma oportunidade comercial para os sistemas de armazenamento. Segundo uma análise sobre as perspectivas estratégicas do mercado de energia chileno em 2026, a arbitragem noturna é uma das principais fontes de valor para os projetos BESS no país.

O princípio é simples: a bateria carrega durante o dia, quando há energia abundante e preços baixos, e descarrega à noite, quando a energia se torna mais valiosa.

Dessa forma, o BESS transforma uma geração que poderia ser restringida ou comercializada a preço zero em energia disponível para venda durante os períodos de maior remuneração.

Chile antecipa em décadas sua meta de armazenamento

O crescimento dos projetos de armazenamento no Chile está acontecendo em uma velocidade muito superior à inicialmente prevista.

O Reporte de Proyectos do Ministério de Energia do Chile, publicado em janeiro de 2026, aponta que o país poderá alcançar aproximadamente 6.000 MW de capacidade de armazenamento já no início de 2027.

Essa capacidade estava originalmente associada a uma meta nacional estabelecida para 2050. Ou seja, o Chile pode alcançar o objetivo de mais de duas décadas antes do prazo inicialmente planejado.

O relatório registrava 1.584 MW de armazenamento em operação, 1.601 MW em fase de testes e mais de 4.000 MW em construção. Além disso, novos projetos continuam avançando nas etapas de avaliação e desenvolvimento.

Esse movimento demonstra que o armazenamento deixou de ser tratado como uma possibilidade futura. Ele está se tornando uma resposta imediata aos desafios enfrentados pelo sistema elétrico chileno.

O verdadeiro valor do BESS está no horário da descarga

Embora a arbitragem de energia pareça simples no planejamento, sua execução depende de uma operação altamente coordenada. O BESS precisa carregar no momento adequado, preservar sua capacidade, respeitar os limites das células e permanecer disponível para descarregar exatamente durante a janela em que os preços estão mais altos.

Esse intervalo pode ser curto. Caso uma bateria, um rack ou um inversor apresente uma falha justamente no início da descarga noturna, a oportunidade comercial daquele dia pode desaparecer.

Imagine que o sistema tenha armazenado energia durante toda a tarde. A bateria está carregada e o preço do mercado começa a subir. No entanto, uma limitação no sistema de conversão de potência impede que a descarga ocorra conforme o planejado. A energia está disponível, mas não pode ser entregue.

É justamente nesse ponto que uma camada de monitoramento mais avançada ganha valor. A Delfos acompanha continuamente o comportamento dos principais componentes do BESS, correlacionando dados de bateria, racks, inversores e demais sistemas para identificar desvios antes que eles evoluam para indisponibilidade. Em vez de depender apenas de um alarme crítico no momento da falha, a equipe de O&M passa a ter mais visibilidade sobre comportamentos anormais e sobre quais ativos podem colocar a próxima janela de descarga em risco.

Na prática, isso permite transformar sinais dispersos em informação acionável. Desvios de temperatura, tensão, potência, eficiência ou comportamento entre racks podem ser analisados em conjunto e priorizados de acordo com seu impacto potencial na operação. Assim, a equipe ganha tempo para investigar a causa, ajustar a estratégia de operação ou programar uma intervenção antes que a anomalia comprometa a receita.

Nesse momento, uma falha operacional deixa de ser apenas um problema de manutenção e passa a representar uma perda financeira direta. O problema não está somente no equipamento indisponível, mas na receita que deixou de ser capturada durante uma janela que talvez não possa ser recuperada naquele dia.

Por isso, em projetos BESS orientados à arbitragem, disponibilidade não é apenas um indicador de manutenção. É uma métrica de receita.

Monitorar BESS exige mais do que saber se a bateria está ligada

Em ativos convencionais, a equipe pode acompanhar a disponibilidade verificando se o equipamento está funcionando. Nos sistemas de armazenamento, essa análise precisa ser mais profunda.

Uma bateria pode estar conectada e sem alarmes críticos, mas ainda assim não ter condições de cumprir o próximo ciclo de descarga na potência, duração ou eficiência esperadas.

A pergunta deixa de ser apenas “o sistema está operando?” e passa a ser: o BESS conseguirá entregar a energia planejada, no horário previsto e dentro dos limites de segurança?

Responder a essa pergunta exige acompanhar continuamente o estado de carga, o estado de saúde, as temperaturas, os desequilíbrios entre células e racks, a eficiência dos ciclos e a disponibilidade dos inversores.

Também é necessário correlacionar essas informações com o planejamento de despacho, as condições do mercado e as próximas janelas de operação.

Um pequeno desvio de temperatura ou tensão pode parecer pouco relevante isoladamente. Mas, quando analisado em conjunto com a proximidade de um ciclo de descarga, pode indicar um risco real de perda de capacidade ou indisponibilidade.

Por que os dados do BMS não contam toda a história

O Battery Management System, ou BMS, é indispensável para o controle e a proteção das baterias. Ele monitora células, módulos e racks, além de aplicar limites para manter a operação dentro das condições consideradas seguras pelo fabricante.

No entanto, confiar apenas nos dados apresentados pelo BMS pode limitar a visão da equipe de O&M.

Cada fabricante pode utilizar metodologias próprias para calcular indicadores como State of Charge, o estado de carga, e State of Health, o estado de saúde. Em portfólios com diferentes fornecedores, isso dificulta a comparação entre racks, contêineres e usinas.

Além disso, o BMS acompanha principalmente a bateria. Para entender a performance completa do ativo, é necessário relacionar seus dados com o sistema de conversão de potência, o Energy Management System, o SCADA, os comandos de despacho e a energia efetivamente carregada e descarregada.

Sem essa integração, a equipe pode enxergar os equipamentos separadamente e perceber a limitação somente quando o sistema deixa de cumprir a descarga planejada.

A centralização dos dados permite identificar relações que dificilmente seriam visíveis em plataformas fragmentadas. Um desvio em um rack, uma limitação no inversor e uma perda de eficiência podem fazer parte do mesmo problema, mesmo que apareçam como eventos independentes nos sistemas de origem.

Saúde, segurança e performance precisam ser analisadas juntas

A gestão de BESS deve equilibrar três dimensões inseparáveis: saúde, segurança e performance.

A saúde está relacionada à capacidade da bateria de manter seu desempenho ao longo do tempo. A degradação não ocorre de forma uniforme, e pequenas diferenças entre células ou módulos podem limitar a capacidade utilizável de todo o sistema.

A segurança exige o acompanhamento de temperaturas anormais, dispersões de tensão e comportamentos fora do padrão. Quanto mais cedo esses desvios forem identificados, maior será o tempo disponível para investigar sua origem e planejar uma intervenção.

Já a performance mostra se o ativo está entregando a potência, a duração, a eficiência e a energia esperadas em cada ciclo.

Um BESS pode estar seguro, mas operando abaixo de sua capacidade. Também pode apresentar boa performance no curto prazo enquanto acelera silenciosamente sua degradação.

Por isso, esses indicadores não devem permanecer em telas ou relatórios separados. Eles precisam ser analisados em conjunto para que a equipe compreenda tanto a condição atual do ativo quanto sua capacidade de cumprir os próximos ciclos.

Da manutenção reativa à proteção da receita

Uma estratégia reativa começa quando o alarme aparece ou quando o ativo deixa de operar. Em sistemas que dependem de janelas específicas de comercialização, esse tipo de resposta pode acontecer tarde demais.

Quando a indisponibilidade é percebida no momento da descarga, a equipe pode até corrigir a falha, mas dificilmente recuperaria o preço de mercado perdido naquela janela.

A manutenção preditiva muda essa lógica. Em vez de esperar pela interrupção, a operação acompanha tendências e identifica comportamentos que indicam uma possível limitação futura.

Isso permite investigar o problema, ajustar a estratégia de carga e descarga, redistribuir a operação entre racks ou programar uma intervenção antes que a falha afete a receita.

O objetivo não é apenas evitar que um componente pare de funcionar. É impedir que uma anomalia técnica comprometa o momento mais valioso da operação.

Essa mudança também reforça o papel estratégico das equipes de O&M. Ao preservar a disponibilidade durante as janelas comerciais, a operação deixa de ser percebida apenas como um centro de custos e passa a proteger diretamente o retorno do investimento.

O que o mercado brasileiro pode aprender com o Chile

O Chile oferece uma visão antecipada de um desafio que tende a aparecer em outros mercados com alta penetração de fontes renováveis.

Primeiro, a capacidade solar e eólica cresce rapidamente. Em seguida, surgem congestionamentos, períodos de excesso de oferta e preços próximos de zero. Depois, o armazenamento passa a ser necessário para deslocar a energia para os horários de maior demanda.

A partir desse momento, instalar baterias já não é suficiente. O valor do projeto depende da capacidade de operar esses ativos com segurança, eficiência e disponibilidade contínua.

À medida que o BESS avança no Brasil, geradores, investidores e gestores de ativos precisarão incluir essa visão desde as primeiras etapas dos projetos.

A discussão não deverá se limitar a quantos megawatts ou megawatt-hora serão instalados. Será necessário avaliar quantos estarão efetivamente disponíveis para responder ao despacho, reduzir perdas e capturar as melhores oportunidades de mercado.

Como a Delfos apoia a gestão de sistemas BESS

A Delfos ajuda operadores a centralizar e interpretar os dados dos sistemas de armazenamento, oferecendo uma visão integrada da saúde, da segurança e da performance dos ativos.

A solução se conecta à infraestrutura existente, sem necessidade de substituir o BMS, e permite acompanhar informações provenientes de diferentes fabricantes em um mesmo ambiente.

Com análises contínuas, a equipe pode identificar desvios, comparar o comportamento entre racks e contêineres, acompanhar a eficiência dos ciclos e priorizar intervenções de acordo com o risco técnico e financeiro.

Em um mercado no qual poucas horas podem concentrar uma parcela significativa da receita diária, detectar uma anomalia antes da janela de descarga pode representar a diferença entre capturar o valor da energia ou perder mais uma oportunidade.

Quer saber como ampliar a visibilidade sobre seus sistemas BESS e proteger a disponibilidade dos ativos? Converse com um especialista da Delfos.

Sobre a autora

Thayna Casasola

Analista de Marketing e Conteúdo na Delfos

Thayna Casasola atua na criação e gerenciamento de conteúdo estratégico para a Delfos, traduzindo dados complexos de inteligência operacional e manutenção preditiva em insights valiosos para o mercado de energia renovável da América Latina.

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